Os súditos ameaçam o reinado



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19 de outubro de 2020 - 18:00

Na Idade Média as porções de terras, chamadas de feudos, eram administradas pelos reis e rainhas e o conjunto desses feudos colaborava para o bom funcionamento de uma região que, séculos mais tarde, transformara-se em país. Do mesmo modo, as abelhas possuem uma organização muito bem estruturada dentro de uma colmeia, sendo submissas à rainha a qual é responsável pelo bom funcionamento de uma população inteira e de seu hábitat. Qualquer dano que seja feito a uma abelha de um colmeia, eclodirá no dano em cadeia dentro da colônia, atingindo direta ou indiretamente a abelha rainha e comprometendo a vida de muitas espécies da flora, visto que os seres em questão são os polinizadores mais importantes do mundo. Por isso, qual seria a verdadeira ameaça ao planeta quando algumas espécies de abelhas encontram-se em extinção e outras ameaçadas?

Em 2018, a revista do Reino Unido, Imperial College London, publicou estudos que afirmavam a contaminação de uma parte considerável das abelhas do planeta por nicotinoides, uma substância similar à nicotina do cigarro, a qual provoca a morte de muitas delas. Nesse contexto, enquanto na Europa os agrotóxicos ricos nessa substância são proibidos, no Brasil, ainda são usados em larga escala e seguem contaminando tanto as produções, quanto os polinizadores e os seus consumidores, visto que, mesmo ainda não aprovada na câmara, a lei 6299/2002 (também conhecida como “Pacote do Veneno”), avança diante do governo atual.

Estudos da universidade São Paulo estimam, ainda, que nos próximos 30 anos, a população de abelhas e de outros polinizadores será reduzida em mais de 10%, o que é uma previsão ameaçadora para a manutenção da biodiversidade da flora, porque nas florestas tropicais, segundo o mesmo estudo, 90% das espécies dependem de polinizadores para reprodução.

Os prejuízos para o ser humano, em decorrência da própria conduta humana que faz uso de agrotóxicos e investe em desmatamento em nome da pecuária (como é o caso do Brasil que segue em chamas há meses), é o risco de não ter mais acesso a determinados alimentos. Isso porque as espécies vegetais não copulam por conta própria, o normal, para espécies terrestres, é que uma estrutura chamada grão de polen, localizada nos estames de uma flor, sejam conduzidas até o tubo polínico de uma outra flor. Por exemplo, à medida que uma abelha (ou outro polinizador) se alimenta do néctar da primeira flor e ao chegar na segunda para também alimentar-se, parte do polen acumulado em seu corpo cai na flor em questão e possibilita o cruzamento. Isso é um evento natural que só continuará acontecendo caso a espécie humana pare de assassinar as abelhas.

A renomada produtora de animações, DreamWorks, retrata com maestria como o mundo viveria sem as abelhas as quais, no filme Bee movie, encontram-se também ameaçadas e a partir da conduta degradante dos seres humanos, a cidade perdeu boa parte de seus parques e bosques, pois não havia mais abelhas suficientes para polinizar as flores da região. Como uma reação em cadeia, as plantas morriam, o que reduzia ainda mais o alimento disponível para as abelhas e, consequentemente, tornavam mais escassos os frutos e as flores que antes sustentavam e alegravam a vida da comunidade local. No caso do Brasil, um país continental que possui como base econômica as commodities, seria um filme mais drástico que teria a economia e a alimentação da sociedade extremamente prejudicados. Com fome e sem ter o que comercializar com outros países, nem subsídios nacionais teríamos como investimento e qual seria o fim desse filme? Fica a seu encargo, caro leitor.

É preciso batalhar para as autoridades locais e nacionais não atuarem como se inexistissem uma vontade e uma consciência social. A vontade do povo, na democracia, é soberana (ou pelo menos deveria ser), então, ocupemos nosso papel como cidadãos e posicionemo-nos, debatamos e não permitamos que: políticas como a lei 6299/2002 tornem-se realidade em nosso país; as abelhas deixem de ser as rainhas das florestas nacionais e a nossa segurança alimentar seja ameaçada por atitudes humanas. Não sejamos súditos ingratos de um serviço nobre da natureza, defender as abelhas é defender todas as outras espécies, é ter ciência da necessidade de manter o equilíbrio terrestre e do valor da vida de cada ser vivo existente no mundo. Defender a preservação de abelhas, é defender a vida, é ser contrário à destruição do do meio ambiente e colocar um limite na insegurança alimentar e sanitária. Defenda esta causa!