O Futuro Repetindo o Passado?



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3 de December de 2020 - 8:30


No dia 03 de Dezembro de 1984, à meia-noite, na cidade de Bhopal, capital de Madhya Pradeshcon, na Índia, 40 toneladas de Isocianato de Metilo (MIC) vazaram de uma fábrica de agrotóxicos da Union Carbide, corporação estadunidense. O MIC entrou na corrente sanguínea de todas as pessoas que o inalaram, causando danos aos olhos, pulmões, cérebro, e aos sistemas imunológico, reprodutivo musculoesquelético e outras partes do corpo, assim como à saúde mental. Infelizmente, nenhum dos responsáveis pela Union Carbide na Índia foram presos e o presidente da multinacional, já falecido, pagou uma fiança e saiu impune do crime. Como homenagem às vítimas deste acidente, no dia 03 de Dezembro comemora-se o Dia Internacional de Luta Contra os Agrotóxicos. Mas afinal, o que são os agrotóxicos?

Agrotóxicos são produtos químicos sintéticos. Eles surgiram durante a Segunda Guerra Mundial, e foram criados para serem usados como arma química. Com o fim da guerra, eles passaram a ser utilizados como defensivos agrícolas (pesticidas). A partir de 1950, a Revolução Verde alterou a produção agrícola através do processo de modernização do campo. Aumentou-se o número de pesquisas com sementes, fertilização do solo e utilização de máquinas de campo. Com essas mudanças, os agrotóxicos também entraram nos processos de produção do campo, a fim de controlar as pragas e diminuir as perdas nas colheitas, alterando a função da fauna e da flora.

Infelizmente, o uso dos agrotóxicos causa riscos tanto à saúde humana, quanto ao meio ambiente. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), são registradas 20 mil mortes por ano devido o consumo de agrotóxicos. Os principais afetados são: os trabalhadores de indústrias agrícolas, que mantém contato direto com o produto e fazem o manuseio nas plantações; a população, com o contato direto através do consumo de água e alimentos. Além disso, os agrotóxicos também afetam o meio ambiente, atingindo o solo e as águas subterrâneas. Ademais, eles são produtos bioacumulativos: atingem diretamente a cadeia alimentar, à medida que um ser vivo tenha acúmulo dessas substâncias no organismo, podendo chegar ao maior nível trófico.

No Brasil, somente em 2019 foram liberados 479 novas substâncias para o uso nas produções agrícolas do país, totalizando 12 mil toneladas, o maior número da história. Para piorar a situação, o atual governo Bolsonaro autorizou a exportação dos produtos como prática econômica. No ano de 2020, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), liberou estoques do agrotóxico paraquete, considerado altamente tóxico ao sistema neurológico e o mais nocivo à saúde, sendo estudado em pesquisas envolvendo mutações genéticas.

Como tentar entender tantos retrocessos no período em que vivemos? Basta analisarmos a falta de fiscalização das grandes indústrias agrícolas presentes no Campo. O Brasil, ocupando a 2° posição no ranking de uso dos agrotóxicos, é o país que mais desvaloriza a ciência e a pesquisa, principalmente se tratando do rural. Caminhamos para uma “Bhapal moderna” em diferentes escalas.

Apesar do cenário, existem propostas e mudanças que devemos valorizar nesta data, como a criação do PNARA – Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (Projeto de Lei n° 6670/2016), na qual foi aprovada na Comissão Especial da Câmara dos Deputados e se encontra pronta para a aprovação em plenário. É de extrema importância denunciar os efeitos nocivos dos agrotóxicos, transgênicos e do agronegócio para a saúde da população brasileira e do meio ambiente. Além disso, deve-se valorizar, anunciar e fortalecer a Agroecologia como forma de produção agrícola e modo de vida, garantindo uma alimentação saudável para o campo e para as cidades.

Muito mais do que justiça social, lutar contra os agrotóxicos e reafirmar o posicionamento a uma soberania alimentar são práticas individuais que todos devemos ter. Consumir produtos de uma produção agroecológica é valorizar a terra e a força de trabalho do pequeno produtor. É, também, valorizar aquilo que a terra produz de forma mais natural possível. Neste dia 03 de Dezembro, trazemos à memória a esperança de uma sociedade brasileira justa e limpa de agrotóxicos, contra uma possível tragédia no futuro.